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As folias de Reis no Norte do Paraná

O Norte do Paraná

A região Norte do Paraná apresenta uma grande concentração de folias de Reis que mantêm a tradição de cantar o nascimento do menino Jesus e a jornada dos Reis Magos, pedindo ofertas para a realização de festa comunitária.

Provavelmente, o Norte do estado poderá ser caracterizado como o maior foco de concentração de companhias e de intercâmbios entre elas por meio de encontros, festivais, viagens para cantar em diferentes localidades, visitas de folias a casas de outros foliões.

Os foliões locais, especialmente os embaixadores (líderes dos grupos), com frequência expressam em seus discursos a história das famílias e das comunidades ao narrar histórias dos giros das bandeiras e das migrações em busca de melhores condições de vida. Comentam que fazem folia desde pequenos, que aprenderam com os pais, os tios e os avós, que também cantavam em seus lugares de origem; contam da sua chegada na nova terra e do processo de instalação e de formação de uma nova companhia.

A colonização do Norte do Paraná, no que diz respeito à formação de cidades, é recente. Londrina (segunda maior cidade do estado) tem como fundação a data de 1934; Maringá, outra cidade de referência da região, data de 1947. Durante a colonização extensiva da região, lá se estabeleceram muitos migrantes de Minas Gerais, São Paulo, Bahia, entre outros, a fim de trabalhar no cultivo do café, o que, aliás explica a variação de toadas nas folias, chamadas de toadas mineira, paulista e baiana.

A economia da região, construída com base na agricultura, inicialmente focada no cultivo do café, sofreu uma quebra com a chamada grande geada de 1975, que destruiu as plantações, substituídas mais recentemente pela soja, altura em que a entrada do maquinário na produção agrícola da região alterou fortemente a configuração da vida rural.

Hoje encontramos muitas realidades sobrepostas neste cenário: tanto a grande produção industrializada de soja que domina os campos, como o pequeno agricultor que trabalha em terra de terceiros ou em sua pequena propriedade, produzindo víveres para sua subsistência, quanto o trabalhador que saiu do campo por não conseguir manter-se na terra e migrou para as cidades levando sua família.

As memórias e as práticas do campo estão presentes nos fazeres e saberes das folias de Reis e seus integrantes. O giro, período em que as folias seguem de casa em casa mantendo a tradição, é para os foliões tempo de anunciar boas novas, e torna-se para a comunidade ocasião de vivenciar a família, os compadres e de fortalecer as relações entre seus pares.

As folias do Norte

A composição das folias na região compreende:

O embaixador: líder do grupo, responsável moral, intelectual, musical;

O contramestre: o principal ajudante do embaixador. Musicalmente ele responde o verso e completa a poesia da quadra. Em geral é o corresponsável pela organização da equipe;

O bandeireiro ou alferes: carrega a bandeira, o símbolo da santidade do grupo, por vezes é a figura que controla a organização das ofertas recebidas;

Os foliões: todos os componentes que tocam e/ou cantam e têm o compromisso de acompanhar toda a jornada;

Os bastiões: os palhaços, figuras de mascarados que surgem como brincantes, organizam as ações das visitas da folia em cada casa, fazem quadras aos moradores, dançam pedindo ofertas e entretêm as crianças com brincadeiras;

Acompanhantes: devotos, familiares, amigos, passantes, que se juntam ao cortejo – não são considerados foliões, pois não têm a obrigação de permanecer no giro total do grupo.

Por vezes aparece a figura do festeiro: responsável pela organização das festas comunitárias que acompanha e/ou organiza a folia.

Em geral, as folias do Norte são formadas por homens de 40 a 70 anos, que identificam sua origem familiar no campo, que trabalharam ou trabalham na lavoura, que estão aposentados e/ou tiveram que procurar ocupação no meio urbano.

Atualmente, a maioria destas folias é formada por moradores de bairros periféricos, que transbordam um contexto completamente diferente da área central de cidades como Londrina e Maringá. Em ambientes que misturam a vida do campo e da cidade, muitos cultivam pequenas hortas nos quintais, cantam em duplas caipiras, vivem de pensões ou pequenos trabalhos informais.

Nota-se um esforço dos foliões no sentido de mobilizar novas gerações para integrarem as folias e aprenderem o "ofício" de seus pais e avós a fim de darem continuidade à tradição. A participação de jovens, que diminuiu nas últimas décadas, ainda é pequena, mas é possível observar uma presença efetiva das crianças das famílias de foliões e um residual destas que permanece no grupo durante a adolescência, afirmando seu propósito de continuidade.

Folias – os espaços da tradição

As folias de Reis tradicionalmente saíam de 24 de dezembro, à meia-noite, até 6 de janeiro, dia de Reis.

Os dias que correm este período têm se estendido, e alguns embaixadores iniciam a caminhada antes do Natal e com frequência terminam após o dia de Reis. Tradicionalmente as companhias caminhavam de noite, numa alusão à viagem dos Magos, mas por agora, muitos grupos saem de dia, aos fins de tarde, aos fins de semana.

Estas mudanças ocorrem por uma série de fatores, dentre os quais destacam-se:

A) a diminuição do número de folias versus o aumento do contingente populacional das comunidades, o que faz com que muitas companhias tenham convites que não conseguem atender dentro deste período e, para não deixar de fazer a visita às casas que desejam receber a bandeira, optam por estender o giro do grupo;
B) mudança nas jornadas de trabalho dos componentes que atualmente trabalham em geral na cidade, para um patrão e não mais no campo, em sua própria produção. Assim, não podem se ausentar durante um longo período, tendo que conciliar as saídas com as necessidades do emprego;
C) fatores que impedem o deslocamento durante toda a noite: em algumas localidades, a presença de drogas e violência urbana, bem como, em outros casos, a lei do silêncio.

Assim, nos dias de hoje, as folias adaptam suas saídas às possibilidades dos foliões. As festas comunitárias, por sua vez, em geral ocorrem em um fim de semana para possibilitar o comparecimento do maior número de pessoas, acontecendo até o fim do mês de janeiro.

Um fenômeno que vem se estabelecendo e ganhando espaço no interior do estado, notadamente no Norte, é o "concurso". Organizados por igrejas e prefeituras, reúnem, em espaços como ginásios de esportes, os grupos que cantam e se apresentam concorrendo segundo um regulamento. Eles geram alguma polêmica, mas muitos são os inscritos e grande é a expectativa de obter uma posição de destaque. O fenômeno tem seus adeptos e críticos. Dentre os pontos destacados pelos foliões como positivos em decorrência desses eventos estão a chance de encontrar muitos grupos em um só ponto e a projeção das companhias junto à população. Dentre os pontos negativos, a competição que geram, por vezes, criam mudanças nas práticas das folias que são instauradas apenas para obter uma melhor colocação nesses eventos e causam frustração a muitos grupos e embaixadores com o resultado. Em algumas localidades, vêm se transformando gradativamente em encontros, priorizando a apresentação dos grupos, mas sem a atribuição de prêmios.

Também por conta dos concursos que decorrem em geral durante janeiro e fevereiro, o tempo das folias de alguma forma se estende e os grupos se reúnem para cantar em um período mais alargado, embora pontual.

Ainda hoje as companhias são em geral formadas por dois elos: famílias e compadres. Assim, o sistema de entrada nos grupos é por parentesco ou conhecimento e pertença à comunidade. No discurso dos embaixadores, observa-se o grande critério ao escolher um folião e destaca-se a responsabilidade do embaixador ao levar para visitas às casas das pessoas não raro 12 a 15 elementos, além de alguns seguidores.

O acompanhamento da folia de Reis, formado por familiares, amigos ou transeuntes, é também uma forma de encontro entre os membros das comunidades. A folia ocupa o espaço público: as ruas, as estradas, os caminhos e permite que se junte à caminhada todo aquele que deseje seguir a bandeira. Nos dias atuais, os cortejos diminuem, mas quando uma folia tem data marcada para sua passagem por uma localidade, eles ganham força e representatividade.

A relação das folias com os poderes institucionalizados como a Igreja o Estado também vem se modificando ao longo das últimas décadas.

Com relação à Igreja Católica, desde sempre as práticas das folias de Reis coexistiram com períodos de harmonia e desentendimentos com a instituição. Ao mesmo tempo em que a folia aproxima os fiéis da religião, as práticas não ortodoxas dos grupos – cujo compromisso, na palavra dos embaixadores, "é com os Santos Reis" – incomodavam muitos padres que não apoiavam esta manifestação. Recentemente, percebe-se na região a aproximação dos padres e dos foliões. Alguns deles acompanham efetivamente o giro, incentivam que a bandeira faça sua saída na igreja e cedem espaço das congregações para a realização das festas.

Com relação ao Estado, cada vez mais, a pressão em relação à construção de políticas públicas que apoiem as culturas populares, bem como a percepção dos próprios grupos de uma obrigatoriedade do poder público em dar suporte a essas expressões têm fomentado muitas demandas dos grupos locais. Os apoios ainda são pontuais e frágeis em relação ao esperado pelas folias.

Dessa forma, a marcante falta de documentação e registro das companhias da região começa a ser percebida pelos órgãos oficiais ligados à cultura e à preservação do patrimônio e pode-se dizer que existe uma sensibilidade com relação ao tema.

Folia pelos foliões

Ao documentar as folias de Reis do Norte do Paraná, podemos observar nas fotos e vídeos compilados neste website, a força da cultura popular. Elas são um agente vivo que interage na complexa massa urbana como um componente que pode ativar nas cidades um modo de vida que integra e não exclui, que recicla, que reconta, que revive as estruturas sociais da ruralidade. Prova disso são os depoimentos dos embaixadores, foliões e moradores aqui disponibilizados.

Por meio dos vídeos e fotos que compilamos, as folias do Norte mostram sua riqueza, seus caminhos, suas dificuldades e nos dão a oportunidade de fazer esta viagem ao encontro dos grupos e das nossas próprias questões sobre o campo, a cidade, a festa e a cultura do Brasil rural.