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Folias de Reis no Brasil

A folia de Reis provavelmente chegou ao Brasil nos primórdios da colonização, trazida pelos portugueses que ainda hoje costumam "cantar os Reis" ou "cantar as Janeiras" de porta em porta pedindo uma prenda.

Os Reis Santos, como são chamados por muitos, ganharam fama em quase todo o Brasil pelos milagres a eles atribuídos, contados por seus devotos que, cumprindo promessas, realizam festas, cortejos, ofertas e banquetes em sua honra. Dessa forma, a folia de Reis firmou-se no país como uma tradição que congrega não somente a expressão musical e literata do povo, mas um conjunto sociocultural de formas de pensar, de viver e de interpretar o mundo, marcando na sua caminhada valores como a união entre os que compõem a comunidade, a experiência do homem com o sentido do divino, a partilha por meio da festa comunitária e o rito de passagem de um ano para o outro celebrado no agradecimento sincero e na promessa de continuar foliando Reis.

No Brasil, a folia de Reis também pode ser chamada de companhia, embaixada, terno, bandeira, entre outras denominações. Nesta tradição musical popular, um grupo de homens sai a pé, a cavalo ou de barco (e mais recentemente veículos motorizados como carros, caminhões, ônibus) visitando casas e fazendas, em geral no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro (dia de Reis), contando em versos e canções a viagem dos Reis magos que, seguindo a estrela de Belém, foram visitar o Menino Jesus recém-nascido.

Os componentes da companhia

O grupo de uma folia é composto por uma estrutura que pode variar. Na maioria das vezes, conta com um embaixador (ou mestre, capitão, folião de guia, etc.). Este é o responsável pela coordenação e pela obediência de todos às regras e procedimentos necessários à tradição. Ele é quem dá o verso que será respondido por seu contramestre (ou contraguia, entre outros nomes) completando os dizeres já conhecidos e muitas vezes improvisados, de acordo com as situações encontradas pelo grupo, na visita a uma casa.

Além deles, fazem parte da companhia figuras essenciais, como o alferes (ou porta-bandeira, bandeireiro, estandarte, etc.), encarregado de levar a bandeira dos Reis.

A bandeira tem imagens como os Santos Reis, a estrela de Belém, cenas do nascimento de Jesus, e é um símbolo do grupo, elemento sagrado, de grande respeito. Nela, a comunidade pendura fitas, flores, dinheiro, fotos em agradecimento à graça recebida. Muitos beijam e demonstram toda a emoção de recebê-la em sua casa enquanto os foliões cantam em frente ao presépio ali instalado. A bandeira ajuda os foliões a cumprirem sua tarefa, no dizer de muitos deles. É ela quem guia e identifica a companhia, representando o Sagrado.

Muitas folias contam com o palhaço, em geral chamado de bastião ou ainda de marungo, figura de um mascarado que pode ter variação numérica e de gênero: um, dois, três, somente homens, um casal. A figura do palhaço recebe explicações diversas dos guias. Alguns dizem ser um brincante, outros que a função dele é chegar antes da folia e orientar o guia. O palhaço é uma figura importante na embaixada. Tem grande ligação com a bandeira e com o cumprimento das promessas, improvisando versos, danças e prestando reverências aos donos das casas pelas quais passa a folia.

Em algumas regiões do país, não se tem o costume de utilizar o palhaço nas companhias. Há guias que acreditam que esta figura não deve aparecer por representar o diabo, sendo por vezes explicado como um soldado de Herodes que vai delatar a chegada do menino.

Além desses componentes, uma companhia é formada pelos foliões, que são os devotos que tocam diversos instrumentos como viola, violão, rabeca, cavaquinho, bandolim, sanfona, caixa, pandeiro, percussões diversas, entre outros.

Os foliões, além de tocar um instrumento, também cantam, auxiliando o embaixador e o contramestre em vozes que recebem diversas denominações. O embaixador inicia (puxa) os dois primeiros versos da quadra, completados (respondidos) pelo contramestre, cantando em dueto. A seguir, as demais vozes que recebem denominações como: contrato, requinta, tala, talinha, tipe, contratipe, baixo, entre outras, variam em número e em altura e acompanham formando o coro, repetindo todo o texto, ou os finais de frase.

Assim como a composição instrumental das folias é diversa, a composição vocal dos grupos também não é fixa. Um mesmo folião poderá cantar em diferentes vozes conforme a necessidade do grupo e, da mesma forma, mais de um folião poderá executar uma determinada voz. Uma folia poderá ser cantada por quatro, cinco, seis ou mais foliões. O nome atribuído as vozes na folia varia de região para região, e por vezes em grupos da mesma região.

A visita da folia

Em cada lar, os devotos seguem uma ordem preestabelecida de rituais, cantando versos conforme a situação, louvando o morador, abençoando os presentes, descrevendo a viagem dos Reis, pedindo a oferta, também chamada de esmola ou prenda (donativo angariado para uma finalidade específica, em geral para a realização de uma festa comunitária) agradecendo a comida, então oferecida pelos anfitriões.

A bandeira, trazida pela companhia, é recebida à porta da casa e entra nas mãos do morador. No presépio, a folia canta os versos da chegada e continua com improvisos conforme as necessidades da família. A bandeira, objeto de devoção, pode ser levada a todos os cômodos, como uma espécie de bênção e proteção. Muitas vezes os donos da casa pedirão aos palhaços que dancem em troca de ofertas e divirtam a assistência com suas entradas, rimas e gracejos. Não raro os devotos receberão os componentes do grupo com um café, ou para a refeição propriamente dita.

Antes de partir, a folia recebe a oferta daquela visita, e os foliões cantam a despedida com versos que falam do retorno para o próximo ano.

A companhia continuará sua viagem, com o compromisso de visitar a todos que abrirem as portas para Santos Reis entrar.

Festa e fé

Em geral, no dia 6 de janeiro, as folias encerram o giro (nome dado ao tempo e percurso realizado pela companhia) e a comunidade se reúne em uma festa organizada graças aos donativos recolhidos durante as visitas da bandeira. Juntos, celebram a passagem de mais um ano, o fechamento de mais um ciclo, os milagres concedidos e festejam a esperança de um futuro melhor.

A tradição de "tirar" uma folia de Reis está eminentemente ligada à vida do campo e ao mundo rural. Aborda temas como a relação do homem com a terra, com a comunidade, com a fé; trata de questões como o auxílio mútuo e cooperativo entre os membros da comunidade, da realização da festa em regime de mutirão; simboliza o rito de passagem (de ano a ano, de ciclo a ciclo, de colheita a colheita).

Nestes ambientes rurais e interioranos, as folias multiplicaram-se, prosperaram e se misturaram com os aspectos sociais, culturais e religiosos das comunidades.

Nas últimas décadas, com as recentes e intensas mudanças na estrutura da vida rural, também as folias de Reis sofreram alterações e adaptações para poderem continuar existindo no mundo atual, em contextos rurais e/ou urbanos.

Nos dias atuais, no campo ou na cidade, as folias continuam vivas no país e desafiam o tempo, mostrando a força da terra, da fé e do homem rural num Brasil que vive profundas transformações nas suas estruturas sociais.