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Cultura, Memória, Futuro
A tradição rural nos dias de hoje

Ao representar aspectos sociais, religiosos e lúdicos de suas coletividades e dar vazão aos potenciais artísticos em performances individuais nas festas e celebrações comunitárias, os homens e mulheres que constroem as muitas identidades do Brasil rural tornam-se indivíduos produtores de cultura.

Eles nos mostram, ao longo do calendário anual, o quanto é importante marcar na vida do grupo – seja na festa, no trabalho ou na fé – as etapas que, no campo, a natureza aponta.

O entretenimento e o ritual então produzidos por meio da música e da dança, da decoração, da comida, enfim, da festa como um todo exige uma organização e divisão de tarefas que cada um dos envolvidos executa em benefício da manutenção dos valores de todos.

O que se faz e os sentidos do que se faz pertencem à história do lugar e, é claro, de seus habitantes, revelando uma rica cultura.

Neste processo, depende-se muito dos detentores dos saberes acumulados ao longo de gerações para cumprir à risca os preceitos que essas práticas determinam.

Assim como há tempo para o inverno e para o verão, para o plantar e para o colher, para o dia e para a noite, há tempo para celebrar e para se recolher, para cantar o trabalho e para dançar a festa.

É preciso reter nos pés e mãos, na retina, na mente e no coração os porquês do fazer. Estes porquês, criados e mantidos pelo mundo rural com seus saberes, suas práticas, suas limitações e contingências, resultam nas festas populares, entendidas como uma necessidade vital.

Para se tirar uma bandeira, ou botar os versos de uma encomendação de almas, para se cantar para a chuva, ou bater os pés em um catira, para celebrar os Reis e o Divino, para pontear uma viola ou ir à frente de uma companhia, conduzindo o peso e a leveza de uma bandeira, há que se ter a memória.

A memória do avô que era violeiro e da tia que era festeira, do dia em que alguém não abriu a porta para a bandeira e de quando dois grandes embaixadores se encontraram no giro. Os saberes de anos de ofertas, festas, esperas pelo bom tempo, pelo crescer da plantação, só para arrancá-la do chão e querer vê-la crescer de novo.

Esta memória que dá sentido às festas e práticas culturais do Brasil rural, é a memória do campo, da vida que nele ainda habita. Uma memória que se transmite como quem planta, ainda que com outro tempo.

O poder da transmissão de informação no mundo rural vem das raízes. Aprende-se vivendo. Experienciando. Não há um ensino formal isolado. Há por vezes quem ensine. Mas todo bom violeiro dirá que a viola não se ensina: aprende-se.

No campo, é preciso que cada um declare suas intenções. Deseje verdadeiramente a festa e a colheita. Trabalhe por elas. E para que nasça, é preciso plantar: a semente e a festa. Existe a necessidade do fazer.

É preciso fazer a festa do começo ao fim. Todas as vezes. E é esta prática, repetida, ciclo a ciclo, ano a ano, geração a geração, que permite que as camadas de experiências cotidianas, solidificadas nas memórias individuais, produzam o entreter e o ritualizar, perpetuando a cultura do grupo, contribuindo diretamente para a afirmação e manutenção destas sociedades.

Nas últimas décadas, o acelerado crescimento das cidades, concomitante com um processo de abandono do campo e de dispersão das pequenas comunidades rurais, provocou uma diminuição das oportunidades e uma diluição dos porquês de se fazer uma festa ou se manter uma prática cultural ligada à vida rural.

A desmobilização dos agrupamentos rurais e a fragmentação de suas práticas e saberes, sublinhou do ponto de vista cultural, um período de desarticulação na organização e na realização de festas e práticas.

As migrações do campo para a cidade, a adaptação para outra lógica de organização do trabalho e dos grupos humanos, a perda dos parâmetros estabelecidos por gerações nas relações sociais da ruralidade ainda são processos em andamento.

O campo existe, a cidade existe. As relações entre estes dois universos aumentam. Ainda é preciso descobrir uma maneira de incluir valores mútuos, de aceitar e respeitar as diferenças, de abrir espaços de convivência de forma natural. Estes espaços, em construção, ainda são palco de esforços mútuos, de aprendizado com as dificuldades. Mas são justamente eles que produzem pontos de diálogo, de reflexão, de compreensão da real necessidade do trabalho na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Os valores da cultura rural – revelados no amor pela terra, na consciência da necessidade de apoio mútuo do grupo, no respeito ao tempo e ao outro, na vida baseada no mutirão para a construção do espaço comum e por vezes do bem individual – parecem, mais do que nunca, necessários a uma sociedade urbana que precisa excluir menos.

Hoje as tradições culturais do campo procuram um espaço de inserção também na cidade. Para solidificar o futuro das festas populares em outros meios, que não o de sua origem rural, é preciso contar com a mobilização de muitos. De seus atores, que detêm os saberes e os porquês do fazer, dos seus novos entornos – as novas gerações de familiares ou de vizinhos – que poderão dar sentidos para a continuidade de determinadas práticas, adaptando-as a outras realidades, e dos que estão ainda distantes delas: conhecendo, compreendendo o seu valor e respeitando a importância desses fazeres para a cultura de todos.

Nestas últimas décadas mais acentuadamente, as mudanças aceleradas e desconstrutoras do mundo rural pareceram ter as condições para extinguir a força da vida e das culturas do campo. Entretanto, nesse mesmo período, essas culturas, embora enfraquecidas e por vezes descredibilizadas, encontraram nas mãos dos seus representantes novos espaços e formas para se perpetuar.

O empenho de adultos, jovens e crianças tem se mostrado aqui e acolá. Por vezes a duras penas, com esforços e adaptações. Mas aos poucos vão se fortalecendo processos, abrindo caminhos, conseguindo recuperar espaços perdidos e ganhar novos, antes inimagináveis. Enfrentando com persistência as resistências, grupos e comunidades rurais vêm trabalhando por um futuro sólido para suas tradições.

O que se percebe é que gente da área rural e urbana vem contribuindo com trabalho, respeito e abertura para um movimento de retomada, manutenção e valorização das expressões artísticas e culturais do homem do campo, dando abertura para a construção de um futuro de inclusão para todos, no campo e na cidade.